Nunca é um Adeus
Como em uma doce ironia, Afasto-me novamente destas terras, Sem dores nem gritos, Apenas um ensurdecedor silêncio. Afasto-me, Não com o selo de um adeus, Pois o adeus é definitivo, E eu sou efêmero demais para encerramentos. O que há muito via como perda, Hoje nomeio como mudança — Quiçá para poupar-me de angústias, Como quem alega domínio sobre o caos. O prazer? Não mais me embriaga. O pesar? Já nem me crucifica. Tornei-me espectador de mim mesmo, Num teatro cujas cortinas se desdobram, E concretizo uma peça para a qual não ensaiei, Mas cujo itinerário sempre soube. Destino, irônico arquiteto de meus passos, Há muito não intento decifrar-te. Sussurra-me o que queres, E assim o terás. Tu, aquele que outrora faciei como adversário, Aquele que leciona como pai severo, Mas que afagas como colo de mãe. Não mais blasfemo contra ti. Sempre trouxeste a mim o que era de minha sina, E, como filho ingrato, ousei odiar-te Mas, afinal, de que vale a gratidão De um poeta que mais escreve na inquietude do que na erudição.
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