Madrugada no Banheiro
A casa dormia, escura como vila abandonada, sem uma luz, sem um sussurro de vida. Entrei no banheiro, tateando o escuro, e, por instinto, ergui o rosto ao céu. Lá estavam elas: grandes olhos brancos, pupilas de luz cravadas no infinito. Meus olhos, ainda sonolentos, tropeçaram nelas, haviam se apaixonado. O coração deu um pulo quieto, como quem descobre um segredo antigo. E eu perguntei ao silêncio: Será que, do outro lado do mundo, alguém olha as mesmas estrelas com o mesmo brilho que agora me queima? Com a mesma paixão que formiga nas pontas dos meus dedos abertos? Ou será que me enamorei apenas de pequenos sóis distantes, de brasas frias que nunca se deixarão tocar? Ah, estrelas, por que brilham tanto se não posso estender a mão e sentir o calor de desta pele de luz? Meus olhos vos perseguem, correm atrás de vós pelo céu inteiro, mas vós fugis, serenas, deixando-me aqui, com o peito cheio de desejo e as mãos cheias de emoções vazias. Ainda assim, todas as noites volto. Porque, mesmo intocáveis, vós sois o único amor que nunca me abandona quando apago a luz.
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